Vivemos num mundo das transformações socioculturais, políticas, econômicas, morais e científicas ocorridas na sociedade e estamos presenciando uma mutação histórica nos modos de ser e estar no mundo. Transformações que vêm se engendrando há algumas décadas e que, culminaram no desenvolvimento das novas tecnologias que refletem o modo de ser do indivíduo e ao mesmo tempo, provocam mais mudanças. A subjetividade do homem contemporâneo é influenciada por essa nova realidade.

O conceito de intimidade, de espaço público e privado mudou. Antes, protegidos pelo entre paredes de nosso quarto, líamos, escrevíamos nossos diários, nossos poemas e os trancávamos no espaço mais protegido do olhar alheio, como uma preciosidade que só a nós pertencia. O espaço privado era bem diferenciado do espaço público. Hoje escrevemos os diários em blogs, expomos nossa intimidade no Facebook, exibimos imagens das situações mais banais no Instagram, montamos um espetáculo de nós mesmos e buscamos o olhar do outro e sua aprovação por meio de curtidas. A intimidade tem se deixado infiltrar pelas redes.

Uma janela para evidenciar as mudanças do modus vivendi contemporâneo seria o mundo virtual, propiciado pelas novas tecnologias digitais e pela internet.

Contemporaneidade aqui se refere à pós-modernidade ou modernidade tardia, ou hipermodernidade, termo preferido por Christopher Lash (1983) para se referir às últimas décadas do século XX e ao século XXI.

Estamos diante de uma tela de computador o tempo todo, em comunicação simultânea com outras pessoas através dos smartphones, em redes digitais que se infiltraram pelos muros e que mudaram as referências espaciais para sempre. O espaço se amplificou. Os celulares se incorporaram às nossas mãos e ao nosso cotidiano. Temos necessidade de nos mantermos conectados e ligados. Cada vez mais é preciso se tornar visível e estar on-line.

As pessoas postam em redes sociais o que consideram o melhor de si, assim como são capazes de expressar, em perfis falsos ou não, o lado mais preconceituoso e agressivo de seu ser. E hoje também é cada vez mais comum a exposição pública da morte nas redes sociais.

Aos poucos, o véu que escondia a dor da perda e o luto passou a ser falado, compartilhado e exposto em fotografias e memoriais on-line. O sofrimento também é curtido através da internet.

O ciberespaço propicia que pessoas anônimas postem e compartilhem seus pensamentos, suas ideias, músicas, dotes artísticos, vídeos que se tornam virais, que autores publiquem seus livros, o que seria impossível ou muito difícil há alguns anos atrás e que desconhecidos tenham visibilidade e se tornem celebridades em um curto espaço de tempo, revelando talentos.

Os laços sociais foram marcados e revolucionados pelas novas tecnologias. Protegidos pelo anonimato ou pela percepção de ser anônimo, os usuários se arriscam mais e ousam procurar e vivenciar fantasias on-line, a que não se permitiriam presencialmente, fantasias que são bem aceitas no ciberespaço.

Hoje temos uma sociedade de massa organizada em redes, transformando os sujeitos em individualidades múltiplas, em personalidades atomizadas ou dissociadas, em mercadorias, em corpos fatiados, breves, em sujeitos capturados pela imago do duplo no espelho. De onde emergem as novas formas de sofrimento psíquico e de novas maneiras de classificá-las, caracterizadas pela valorização narcísica e pelo abandono da ideia de uma subjetividade “rebelde”. A crise mais ampla da modernidade incide na construção da subjetividade contemporânea, ou seja, na própria constituição do sujeito psíquico. O vazio e o desamparo sentido pelo sujeito geram um sofrimento que pertence ao indivíduo isoladamente, mas também e concomitantemente à sociedade e à cultura na qual o indivíduo está inserido. Dois aspectos se destacam nesse sentido, a menção do gradual aumento de características narcisistas de personalidade e também de estados afetivos depressivos identificados em estudos internacionais ao longo das últimas décadas.

Isso explica a proliferação de psicoterapias efêmeras parecendo adaptadas a cada indivíduo, a cada comunidade, a cada grupo. Essas terapias deixam crer que a vontade individual é mais potente que o peso do passado e da genealogia e que ela determina muito mais o destino do sujeito do que a ancoragem no universo familiar, na memória, enfim, no inconsciente no sentido psicanalítico.

Os pacientes não parecem mais sofrer de um recalcamento do desejo, mas de uma nova forma de subjetividade, uma insatisfação existencial, de um estado amorfo e fútil, de um vazio, de uma desilusão crônica e, sobretudo, de uma incapacidade a toda relação de alteridade.

As pessoas se sentem mais desinibidas e são capazes de experimentar situações em que não se arriscariam na vida real. Há também menor percepção de responsabilidade devido a essa sensação de anonimato e privacidade.

Existe também um estado de imersão e dissociação de consciência, que envolve sensações variadas como a perda da noção de tempo, esquecimento de frações de tempo, estar num estado de consciência alterado semelhante a um transe, encarnar, ou melhor, vivenciar uma outra persona diferente do seu Eu, sentir uma linha tênue que separa uma realidade virtual de uma real.

A internet cria um espaço intermediário entre a realidade (do outro lado do computador existe uma pessoa real) e a imaginação (pessoa que eu crio e idealizo conforme meus desejos).

Na internet acontece uma ausência de adiamento de gratificações, o que a torna uma experiência quase mágica de ter um pensamento, um desejo, uma curiosidade e simplesmente dar um clique e ver aquilo transformado em realidade.

A possibilidade de instantaneamente acessar qualquer coisa e obter gratificações imediatas quer sejam para impulsos sexuais, jogos, curiosidades intelectuais, de comunicação ou de consumo de compras, torna a internet irresistível.

O ciberespaço se presta também como enfrentamento de situações de medo e inibições para pessoas tímidas e adolescentes se arriscarem através dela. Afinal aqui se pode errar e ter outra chance. E caso haja algum aborrecimento inesperado, é só deletar o outro ou desligar o computador. Ela nos dá uma sensação (imaginária, fantasiosa) de estar no controle da situação. Serve também como evasão, escape das vidas rotineiras, fuga da realidade dolorosa, dos conflitos humanos, fuga de sentimentos de angústia e tristeza.

Novos relacionamentos se formam no mundo virtual e estão intimamente imbricados com a vida real. As pessoas se conectam sexual e afetivamente no ciberespaço e a vida on-line e off-line se misturam definitivamente.

No mundo virtual há quebras de hierarquias, que definem os limites claros e os papéis nos relacionamentos no mundo real. Lá, na virtualidade, todos partem em condições de igualdade. É um espaço democrático.

Como a internet pode ser acessada 24 horas por dia de qualquer lugar não há fronteiras nos conteúdos, é uma rede de contatos muitas vezes impessoais. Na internet jamais terminamos alguma coisa, sempre existe outro link, outro site, outra imagem a ser vista, outra música a ser baixada, etc.

A internet hoje é o maior repositório de informações jamais visto na civilização humana. Essa possibilidade interminável de conteúdo, informações incompletas, essa atenção flutuante, essa alteração de consciência tudo isso é altamente estimulante.

Hoje a internet e as novas tecnologias digitais tornaram possível o ingresso em um universo paralelo onde, além das redes sociais, comunidades, salas de bate-papo, jogos on-line, existem os MUDs (Multi users domains), que são mundos virtuais sitiados, por exemplo, o Second Life, mundo virtual paralelo, que introduz o indivíduo num espaço em que, através de um avatar, ele pode viver aspectos múltiplos de sua identidade ou representar papéis distantes da sua noção de Eu. Nesses mundos, os residentes fazem amizades, se apaixonam, criam comunidades, vão à igreja, a concertos, compram e vendem bens virtuais. As possibilidades são incontáveis e disponíveis numa tela de computador. A cultura em Second Life é profundamente humana. Isso evidencia alguns aspectos em que os seres humanos sempre foram virtuais e que mundos virtuais em sua rica complexidade se constroem sob a aptidão humana para a cultura.

O mundo perdeu a referência simbólica do pai. Vivemos numa sociedade de risco, onde a figura paterna e do soberano já não nos protege mais. Ninguém conta mais com proteção do Estado, e o homem tem que aprender a viver de forma desamparada e a correr riscos. Saímos de uma relação de verticalidade para uma horizontalidade em rede.

A sociedade pós-moderna é caracterizada por fragmentação, falta de unificação e simbolização, que deixaram as pessoas entregues às suas próprias intensidades, sem controle, entregues a excessos de excitações corpóreas sem encontrar mediadores simbólicos que delas deem conta, excitações que as ultrapassam e são descarregadas no corpo ou na ação.

Na modernidade, acreditávamos no futuro: era só agir no presente e esperar que no futuro os nossos sonhos fossem alcançados.

No mundo de hoje nos deparamos com os inúmeros caminhos, com a desorientação, com as incertezas de um mundo líquido, como define, Bauman (2001).

De acordo com Birman (2014), na contemporaneidade se inscreve positivamente três registros psíquicos: o do corpo, o da ação e o das intensidades. Esses três registros podem aparecer combinados ou não, em um mesmo indivíduo.

O corpo é o grande cenário onde o mal-estar se expressa. A saúde se transformou no nosso bem maior e é em função do corpo que se vive. O estresse é a palavra-chave do nosso tempo. Assim como a depressão, o pânico e as manifestações psicossomáticas.

Em relação à ação, formas ostensivas de agressividade, violência e criminalidade se impõem, assim como as ações fracassadas, que são as chamadas compulsões, por drogas, comida, consumo, sexo, jogos, internet. A compulsão é uma modalidade do agir, que se caracteriza pela repetição, pois, sendo uma ação fracassada, o alvo nunca é alcançado.

O terceiro registro no campo das intensidades, as individualidades do mundo atual estariam marcadas pelo excesso que as impulsiona à ação. Caso não se descarregue pela ação ou por um acting out, serão invadidas pelo excesso que as inundará de angústia.

Os registros do pensamento e da linguagem estão empobrecidos na experiência contemporânea. Se o mal-estar contemporâneo se produz nos registros do corpo, da ação e das intensidades, isso revela uma suspensão da ordem do pensamento.

A incidência dos excessos sobre tais registros do psiquismo produz um curto-circuito do pensamento, que não pode funcionar fluentemente, que se paralisa pela própria impotência e pelo vazio que passa a ocupar o psiquismo. Disso decorre um empobrecimento da linguagem, que perde o seu poder metafórico, sendo entremeada cada vez mais por imagens. O discurso assume uma direção horizontal, sem os cortes que poderiam lançá-lo na verticalidade. A linguagem e o discurso assumem uma aparência metonímica e não mais metafórica, se sustentando apenas em um dos eixos da linguagem.

A linguagem, ainda segundo Birman (2014), se transforma perdendo cada vez mais suas marcas simbólicas e se esvaziando na sua dimensão de poiesis, de criação, cedendo lugar às imagens. A linguagem instrumental passa a dominar progressivamente o psiquismo e apresenta dificuldades de regular as intensidades e os excessos. E as imagens capturam o desejo subtraindo-lhe o sentido. A linguagem literal domina a cena psíquica e não pode mais regular as intensidades e os excessos.

Nesse contexto, percebemos que a preponderância da literalidade da clínica atual não torna a psicanálise ultrapassada, mas traz a necessidade de se fazer uma releitura da clínica a partir do trauma, do choque traumático, da angústia e da pulsão de morte. A dificuldade dos pacientes atuais de associar livremente leva alguns analistas a dizer que os pacientes têm dificuldades de representar. O discurso do paciente não flui, não entra em um fluxo temporal; é parado, restringe-se ao presente. Os chamados “novos sintomas”, diferentes dos sintomas freudianos clássicos, se mostrariam mais avessos a interpretações e menos susceptíveis de se dialetizar. O sintoma clássico é uma expressão disfarçada do desejo.

Os novos sintomas seriam uma expressão mais direta das pulsões. Os sintomas ditos contemporâneos estariam relacionados a esse empobrecimento da capacidade de simbolização e de associação por parte do sujeito, remetido ao tempo presentificado da compulsão e à narrativa literal do esvaziamento subjetivo, justificados pelo contexto social em que vivemos.

Torna-se necessário escutar a literalidade da palavra e do corpo dos sujeitos que nos procuram. Sabemos que o psiquismo está além do campo representacional. Ele inclui os signos de percepção, as impressões sensíveis, e a memória corporal.

Nesse sentido, a transferência envolve a repetição de impressões traumáticas. Se a escuta do analista estiver apenas a privilegiar o conflito psíquico e o recalque, não será possível perceber aquilo que se repete.

Temos que estar abertos também a outro tipo de escuta que inclui o corpo, o gesto, o tom de voz, o olhar, além das palavras. A narrativa literal envolve esses registros e já pressupõe um primeiro momento de simbolização, por isso a importância da aliança terapêutica, a sensibilidade do psicólogo, a fundamentação teórica, o tripé da formação do profissional psicólogo (análise pessoal, supervisão e grupo de estudos) e qualificação para manejos dos pacientes em terapias on-line.

Pensar e discutir as novas formas de mal-estar do sujeito na contemporaneidade contribui para referendar o lugar da psicanálise no mundo de hoje.

Precisamos dirigir nosso olhar para a cultura e para o que ela produz, compreendendo cada sujeito como único e a clínica psicanalítica enlaçada nessa cultura.

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Marina S. R. Almeida

Consultora Ed. Inclusiva, Psicóloga Clínica e Escolar

Neuropsicóloga, Psicopedagoga e Pedagoga Especialista

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